Mas recebereis poder, ao descer sobre vós
o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas
tanto em JERUSALÉM como em toda a Judéia
e Samaria e até aos confins da terra. — ATOS 1.8
É curioso notar que a palavra missão aparece apenas duas vezes no Novo Testamento. A primeira em Atos 12.25, referindo-se ao retorno de Paulo e Barnabé a Jerusalém após uma viagem missionária para a qual eles haviam sido enviados. A segunda aparece em 1 Timóteo 2.25, referindo-se à maternidade, à missão que Deus confiou às mães de participarem da criação, dando à luz filhos. Estas duas ocasiões distintas em que a palavra “missão” aparece no Novo Testamento nos ajudam a reconhecer que missão não é apenas o que Paulo e Barnabé fizeram em sua viagem, mas também o que as mães fazem quando geram e educam seus filhos.O apóstolo Paulo em suas viagens não foi mais missionário do que uma mãe ao dar à luz filhos e se dedicar (junto com o pai, é claro) a educá-los. Isto nos ajuda a entender que o chamado de Cristo para segui-lo é um chamado para a missão e envolve todos os cristãos, em tudo aquilo que fazem, independentemente se são chamados para irem a uma região distante plantar uma igreja, para exercerem uma função numa repartição pública ou para realizarem a importante tarefa de serem pais.
Se fôssemos tão consagrados e responsáveis em nossas atividades locais, comunitárias, profissionais ou familiares como os missionários que vão para outros países ou etnias, teríamos uma “Jerusalém” forte e comprometida. Nossas igrejas locais e famílias se transformariam numa “fábrica de missionários”. Os missionários que vão para outros países têm uma forte convicção de chamado; os que ficam não têm convicção alguma de chamado. Aqueles se preparam para isso e consagram suas vidas a essa missão; estes tocam a vida sem nenhuma preocupação com o preparo e a consagração. Enquanto os que vão se ocupam o tempo todo com sua missão, prestam relatórios e envolvem suas igrejas, os quec ficam só se ocupam com alguma “missão” nos finais de semana, são “leigos”, não reconhecem seu ambiente profissional ou familiar como lugar de missão.
É por isto que o diabo gosta das palavras leigo e missionário; elas excluem grande parte dos cristãos da missão. Mães e pais não reconhecem que a maternidade e a paternidade são uma missão. Aliás, muitos hoje olham para os filhos como um transtorno. Alguns optam por não tê-los, e os que os têm delegam a missão de educá-los à escola ou até mesmo a um terapeuta (quando nem a escola consegue mais orientá-los), porque para muitos pais a “missão” de ganhar dinheiro ou de lutar pelo sucesso é mais importante. Profissionais não reconhecem que o exercício de suas profissões e o ambiente em que atuam são meios de Deus realizar sua missão no mundo. Estudantes passam grande parte de suas vidas em escolas e universidades sem reconhecer a necessidade de se prepararem para um rico e vasto campo missionário. Pensamos assim porque, afinal, somos leigos, e não missionários; estamos em “Jerusalém”, e não em Myanmar. A missão sempre começa em “Jerusalém”, em casa, na comunidade local. Não se trata apenas de projetos missionários em que alguns poucos se envolvem, mas de uma consciência missionária para a qual todos são chamados.
Abraham Kuyper, cristão holandês que viveu na virada do século 19 para o século 20, foi pastor, jornalista, político e professor. Como jornalista, fundou um jornal e escreveu inúmeros artigos. Como primeiro ministro, criou a Universidade Livre de Amsterdã e revolucionou o sistema educacional da Holanda. Em todas as áreas em que atuou, fosse como político ou como pastor de uma igreja local, mantinha a mesma consciência de vocação. Ele dizia que todos os dias acordava, olhava para uma cruz que tinha na cabeceira de sua cama, e era como se Deus dissesse a ele que tudo em sua vida pertencia a ele. Ele consagrou sua vida e a dedicou a fazer de “Jerusalém” seu campo missionário. Assim temos um novo desafio missionário, em que missionário não são apenas os outros que enviamos para um país distante, é você; e o campo são todos os lugares e oportunidades de realizar alguma coisa para o reino de Deus.
(Fábrica de missionários : nem leigos, nem santos /Rubem Amorese. – Viçosa, MG : Ultimato, 2008.p.9-11)
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